A feira abre cedo, quando a névoa ainda cobre as pedras da praça e os primeiros caixotes chegam empilhados nas carrocerias. O padeiro acende o forno, mexe a massa com força e assobia baixinho enquanto espera o pão crescer. Do outro lado, a florista organiza girassóis, cravos e folhagens verdes num balde de zinco, e o cheiro de terra molhada se mistura ao de canela e queijo fresco.
O relojoeiro trabalha num banco estreito, junto à janela. Ele encaixa peças minúsculas com uma pinça fina, sopra a poeira de um mecanismo enferrujado e prende a lente no olho esquerdo para conferir cada dente da engrenagem. Quando o ponteiro volta a girar, guarda as ferramentas em caixas de madeira que rangem ao fechar.
Perto do chafariz, três crianças brincam de chutar uma bola murcha. Elas gritam, riem, tropeçam nos degraus e recomeçam sem cansar. Uma senhora de xale cinza atravessa devagar, apoiada na bengala, e cumprimenta o vizinho que varre a calçada com uma vassoura de piaçava.
À tarde o movimento diminui. O sol atravessa as telhas e desenha faixas claras no chão de tábua. O quitandeiro embrulha jabuticabas num jornal velho, faz a conta de cabeça e devolve o troco em moedas gastas. Alguém afina um violão numa banqueta, tenta a mesma frase três vezes e desiste rindo da própria teimosia.
Antes de anoitecer, as barracas são desmontadas em silêncio. Cordas soltas, lonas dobradas, engradados vazios encostados no muro. Um cachorro magro fareja os restos, encontra uma casca de melancia e deita ao lado dela. A lâmpada da esquina pisca duas vezes, hesita, e por fim acende de vez, espalhando uma luz amarela e franca sobre a praça que amanhã recomeça igual.